Sexta-feira, Abril 28, 2006
Chatô: o novo mauricinho
Se você é do tipo de boy que adora quebrar quarto de hotel, usa correntinha de prata indiana, só namora mulher loira em cima mas morena embaixo e grita 'vai, vai, vai' na pista de psy trance, atente pro novo apelido, você é um chatô.
Chatô não veio de Assis Chateaubriand, o verdadeiro Chatô, que fez a televisão no país, o MASP e foi quase um rei no Brasil. Veio do bisneto, Bruno Chateaubriand, um playboy fútil e efeminado, que sai na Caras toda semana ao lado da Narcisa Tanborindeguy. Tem figura mais chata?
Quem é Chatô se veste (e se comporta) como o Marcos Mion, malha na Reebok, faz aniversário no Café de La Music e tem como ideal o Ricardinho Mansur. Daí, normal que o termo tenha ganhado fama em Sampa, um lugar onde é muito fácil de reconhecê-los.
Chatô não trabalha. Quando sai da adolescência (aos 30) pede dinheiro pro pai e abre um negócio, como importação de alguma bebida hype (tipo AfterShock) que geralmente quebra em poucos meses (tipo AfterShock). Quando cansa da vida fútil resolve ralar na Nova Zelândia, com o Amex No Limits do papai no bolso direito, claro.
Toda cidade têm seus jovens ricos. O que os diferencia dos chatôs é a falta de respeito. Chatô que é chatô só tem vaga no cérebro obtuso pra tratar bem três pessoas: o personal, o segurança e a hostess da boate, que (assim como a namorada social climber) só querem deles a única coisa de útil que eles podem oferecer: muuuito dinheiro.
[Refelexões: olha só, tipo assim, saca o lance, então, é isso aí!]
Quarta-feira, Abril 26, 2006
Minimalismo? Sei!
A gente pega uma revista e lê do minimalismo. Acessa um site trend e tá lá o minimalismo de novo. Até aí tudo bem.
Mas quando você entra numa reunião e o atendimento sentencia que o minimalismo é tendência e que nosso trabalho será criar um grande nada (sim, tive que ouvir isso) você bate a mão na mesa de grita chega.
Tá, mentira. Você não bateu a mão na mesa nem gritou. Afinal você é um reles redator. Mas quis bater! Isso é o que vale. Afinal, você tá cansado de ouvir neguinho cagando regra em cima de tendência que nem ele sabe o que é.
Então resolve dar uma volta no shopping. Dentro de uma loja, um vendedor tenta vestir você com uma fantasia de Gandhi. Diante da sua cara de passado, ele avisa: é a moda querido, usar tipo NADA! Minimalismo, já ouviu falar?
E enquanto você joga o minimalismo brega no chão e põe seu velho jeans de volta, percebe que estar por dentro das tendências, por mais básicas que sejam, pode custar caro: afinal o estilo era mínimo, mas o preço... Nem te falo!
[Reflexões: minimalismo são os números miúdos do holerite.]
Segunda-feira, Abril 24, 2006
Solto na city
O finde chega, um feriado junto. Um casal de amigos convida pra descansar na praia. Você, solteiro na cidade de São Paulo, quer sim descansar, mas numa cama king size e muito bem acompanhado. Em busca desse objetivo, cai na vida. A vida, nesse caso, é a fervida noite de São Paulo.
Primeira balada, a festa de um conhecido promoter paulistano. O erro. Você e seu amigo fogem pra porta de um famoso club underground. A fila é enorme. A simpatia do seu amigo com a drag hostess também. Lá dentro, a pessoa mais velha não tem 20. Mas como a noite não é lugar pra preconceito, você espera o momento certo. E pontua.
Dia seguinte, balada seguinte. Você joga charme, joga olhares e joga o copo, que quebra molhando tudo. Sem chances de pontuar, ameaça pedir uma rodadada de tequila prata e acabar com a noite. E com o fígado. Um amigo passa e sente o momento: estressar porque? Tira a camiseta molhada e se joga! Faltando roupa e sobrando opções, você agradece pelos dias de sacrifício na academia quando pontua pela segunda vez no finde.
Terceiro dia, terceira balada. De gel e polo, faz o moço sério. Enquanto suam numa pista lotada, seus amigos tiram sarro do seu modelo e de você, que faz o fino do lado de fora. Mas não tiram sarro quando você, depois de beijar horrores, dá thauzinho indo embora dentro duma pickup enooorme (se é que você me entende).
Domingão, almoço de amigos no apê da amiga recém mamãe. Cheirando a um perfume que não é seu e com a roupa do dia anterior (afinal, não voltou pra casa ainda), confessa pra amiga que anda meio galinha. E que vai sossegar na próxima semana. Mas seu celular toca, a pessoa dona do perfume faz um convite irrecusável. E você avisa a amiga: sim, vou sossegar, mas a semana só acaba depois da meia-noite. Até lá, tem tempo.
[Reflexões: Lavô tá novo!]
Quinta-feira, Abril 20, 2006
Chico Forever
Cresci ouvindo Chico. Achava um porre. Meus pais gostavam da fase hard dele, então dá-lhe roda moinho roda pião, afasta de mim esse cálice e afins. Claro que achava tudo uó e não entendia picas.
Lembro até hoje duma viagem de carro pro nordeste. Três dias, dez fitas. Quase traumatizei. Mas a gente cresce, amores vem, amores vão e a vida ensina. Aliás, como ensina. E um dia, parece que uma chavezinha é ligada.
Daí lá está você, Chico no som, vento no cabelo, pessoa do lado, mãozinha na perna, um destino de fim de semana e tudo começa a se encaixar. Você arregala os olhos! Então era isso que ele queria dizer? Um marco.
Tem gente que acha a MPB um saco e tem horror a Chico Buarque. Não as culpo. Gostar de músicas com tanta carga emocional é, indiretamente, assumir que a gente não é mais criança e que entende a complexidade que é viver.
Também é óbvio que ninguém precisa do Chico pra realizar essas coisas. Mas fazer isso com um pouco de poesia sessentista te dá aquele ar de homem cult-misterioso-bacanudo. Quem sabe assim cê cria coragem pra tirar do armário aqueles terninhos vintage que comprou e nunca usou.
[Reflexões: Num surto, segui a Silvia Buarque no Leblon pra ver onde o pai dela morava. Só de sunga e havaianas.]
Quarta-feira, Abril 19, 2006
Crônicas de Nárnia
O 'de menor', o casaco e o conversível
Quando eu era menor tinha o sonho de ter um casaco tipo piloto Top Gun, sabe? Com pele no capuz? Nunca tive. Primeiro que eu morava em Santos, onde não faz tanto frio. Segundo porque devia ser importado, só ter em São Paulo e custar uma fortuna. E minha mesada só dava pra comprar churros e CDs.
Nessa o mundo mudou, a lusitânia girou, vim fazer faculdade em Sampa, estágio, trabalho, e quando foi outro dia tava na casa dum amigo fumando um lancezinho e bebendo um goró, quando de repente na TV: Top Gun - Ases Indomáveis. Quando vi, tava num casaco naquele náipe.
Você deve estar se perguntando e daí? Daí que eu não cheguei na loja e disse: me vê um casaco tipo Top Gun, né? Mas provavelmente isso (do casaco) deve ter ficado guardado no meu subconsciente. E não é todo dia que a gente tem esses insights sobre a gente mesmo (tirando quem faz análise).
Hoje tenho pretensões maiores que um casaco (fora um trench-coat Tom Ford que eu vi em 2004). Nesse dia revendo o filme, por exemplo, meu sonho de consumo virou aquele conversível prata do Tom Cruise.
Claro que isso tá beeem distante de um mero casaco, mas não custa nada sonhar. Afinal, um dia desejei ter um corpo bacana pra vestir casacos de pilotos, jeans de corte reto e boné de baseball. E hoje... Tá, eu paro.
[Reflexões: Não se pode nem mais brincar? Eu hein!]
Segunda-feira, Abril 17, 2006
Blue Monday
Tem dias que você quer aparecer. Afinal você comprou uma camiseta bacanuda, ou um jeans que valoriza, ou simplesmente acordou bonito, o que também pode ser traduzido como 'de bom humor'.
E tem dias que não. Que você não dormiu direito por causa do cachorro da vizinha. Ou por causa do seu namorado cachorro. Ou até dormiu, só não tava a fim de levantar cedo pra encarar um começo de semana estressante. Enfim, motivos não faltam.
Nesses dias sua cara de menino bonzinho desaparece. E com ela a simpatia. E você quer é ficar na companhia da única pessoa que, inpreterivelmente, vai te aceitar como você é: você mesmo! Então almoça sozinho, passeia no shopping sozinho, toma café sozinho e até ensaia desligar o celular (que você religa logo depois por falta de força de vontade).
Todo mundo tem seus dias do homem invisível. Que nada mais é que uma pausa pra gente poder ser chato, indiferente, blasé, ou o que for. Sem ter que ouvir que a gente está sendo chato, indiferente, blasé, ou o que for.
Mas como disse a Danuza no programa da Marília, seja a tristeza, seja a alegria, seja a riqueza, seja a pobreza, tudo nessa vida passa. Incluindo seus dias de garoto introspectivo.
Até lá, um bom livro (se joga n'O Retrato de Dorian Gray), um bom filme independente (atenta pra Summer Storm), um som no iPod (que pra mim tá sendo Timeless, do Sérgio mendes). Afinal a gente pode ficar chato. Mas perder o hype, jamais.
[Reflexão: me deixaaaaa que hoje eu tó de bobeira, bobeiraaa!!!]
Terça-feira, Abril 11, 2006
Resquícios do fim de semana
Quando o fim de semana termina, também chega a hora de apagar as pistas da jogação. Não que a gente faça isso pra esconder alguma coisa de alguém. Afinal, nós gatos já nascemos pobres porém, já nascemos livres.
Só que é horrível começar a semana acordando cedo e pagando de garoto sério no meio de um quarto com roupa até o teto, latinhas de cerveja e bitucas de cigarros pelo chão, além de outras coisinhas descartáveis que não vem ao caso comentar.
Se você é desses que adora dizer: 'eu só me arrependo do que não fiz', parabéns, porque eu me arrependo de muita coisa que faço, ainda mais quando bebo grandes quantidades de smirnof ice, como nesse fim de semana. Por isso quando acordo no domingo (a noite) começo a faxinar tudo: casa, quarto, carro e, claro, eu mesmo.
Sim, tomar aquele banho de 2 horas, além de relaxar e carregar o corpo e a alma pra semana, serve como check up pra descobrir se você está todo em ordem. Ou se vai achar uma queimadura de cigarro na barriga, que não tem a menor ideia de quando foi.
Curioso mesmo é quando a gente faz o pente fino e dias depois percebe aquela camiseta estranha, aquele óculos escuros diferente, ou aquele maço de cigarros extra-forte no canto do quarto. E demora pra admitir que, sim, o senhor já tinha percebido aquele detalhe antes.
Só não quis mexer. Talvez pra não lembrar algo que rolou. Ou o inverso. Pra lembrar algo que rolou. Algo com alguém bacana que, assim como os resquícios de um fim de semana, foi bom, mas não volta mais.
[Reflexões: Depois de fins de semana assim, evite filmes tipo Depois do Amanhecer, Grandes Esperanças e afins]
Quinta-feira, Abril 06, 2006
Dedo verde-salsinha
Nada me encanta mais que jantar feito a mão. Porque uma coisa é um amigo convidar você pra jantar na casa dele e vocês pedirem uma pizza. Outra coisa é ele te receber de avental e vocês colocarem o papo em dia sentindo aroma de tempero, de vinho e de outono.
Quando esse amigo é mega descolado, do tipo que transita no hype do eixo Rio-São Paulo e tem na cozinha temperos que ele mesmo trouxe da Índia (tá?) a gente já sente que a noite vai ser hours concours. Então coloca no som do carro um Devendra Banhart (adoro!) pra ir entrando no clima e brinca de adivinhar que coisinhas gostosas vão ter no cardápio.
Eu tenho a mão boa pra algumas coisas. Desenho bem, jogo um tênis razoável e, modéstia parte, tenho pegada acima da média, mas definitivamente não tenho uma mão boa pra cozinhar. Tirando dois ou três pratinhos que dão certo, o resto é só miojo com atum.
Mas o que mais me supreende é que quem gosta de cozinhar tem um tipo de savoir-faire único, uma empatia com um mundo que a gente (que não sabe diferenciar rúcula da acelga) jamais vai ter.
Por isso que quando crescer quero ser igual ao meu amigo que cozinha. Provavalmente jamais vou ter esse nível de finesse. Mas se um dia eu chegar na casa de alguém e não ter que perguntar pros outros o que significa chutney, já tá valendo!
[Reflexões: Não vem pagar de fino que você também não sabe! Ou sabe?]
Segunda-feira, Abril 03, 2006
Mexendo o popozão
Praia. Posto 9. Sua amiga comenta que você tem um corpinho legal mas tá devendo no quesito bunda. E você, que não deixa barato, ressalta que o que falta pra você sobra nela. E os dois resolvem encerrar o momento sinceridade por ali, com duas caipirinhas de vodka com adoçante.
Civilização. São Paulo. Você se pega avaliando a tal parte da sua anatomia. E quando se conforma que jamais vai encher uma Diesel como deveria, recebe um treino da sua amiga personal com foco nas partes baixas. Feliz com a coincidência, se enche de coragem, de mega mass sabor baunilha e vai pra academia.
Já no primeiro exercício, sensações estranhas tomam conta de você. Que paga de fortinho, aumenta o som do MP3 e a carga. No fim da série, não sente mais dor. Na verdade, nem dor e nem da cintura pra baixo. Você toma um banho quente e vai pra casa.
24 horas e 2 relaxantes musculares depois, seu corpo ainda dói em lugares onde o sol não bate. Enquanto sua amiga personal gargalha no celular, você consegue mexer o corpo em um último movimeto de vingança: e atira no lixo o treino maldito.
[Reflexões: Melhor um Anador na mão, que dois Love voando]