Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
Porque que a gente é assim?
Dirigindo num sábado à noite a gente canta alto que 'a noite nunca tem fim, porque que a gente é assim'? Mas a noite acaba sim. O fato é que numa cidade que não pára nunca como Sampa, tem sempre outra festa rolando. Ou um chill-out. Ou um churrasco. Ou um petit comitê (que é uma festinha de gente fina). E a gente, que tá na pilha, vai.
E quando vê, tá dançando ao nascer do sol na piscina da casa de alguém, tomando caipirinha com adoçando ao invés de café da manhã. E como você chegou ali de pára quedas, também brinca de adivinhar quem é o dono da festa.
Não que a gente goste de ficar sem dormir. A questão é que melhor que dormir é beijar. E quando a gente está beijando uma pessoa que acabou de conhecer e quando ela quer ir pra outro lugar (festa, comício, jogo do Paissandú), sim, a gente vai. E nem reclama que tá com fome, ou que só tem gente muita estranha no local, nem de nada.
E quando o dia ameaça acabar e você tá até o tampo de caipirinha, droguinhas leves, muito beijo na boca e com a cara do Zé Serra, vai embora achando que o dia podia ter mais que 24 horas. Ou que você podia ter sido mais interessante. Ou que essa historinha poderia ser algo a mais que uma noite. E um monte de outros poréns, que no fim das contas vão ser esquecidos assim que você deitar a cabeça do travesseiro.
Mas fazer o que se a gente é assim?
[Reflexões: quem disse que a mistura está no sangue do brasileiro não era cientista. Era barman!]
Quinta-feira, Janeiro 26, 2006
Fruto proibido
Cada um lida com o stress do trabalho como pode. Tem uma amiga que dá uma choradinha no banheiro. Outro que fuma unzinho no almoço. Já eu, bastava uma pausa rápida pra um Marlboro com café forte e thuns, desacelerava.
Acontece que fumar eu parei. E o café foi proibido ontem pelo ordodontista, por conta de uma clareamento. E te digo que só dele falar em proibir já deu nervoso. Imagina quando eu voltei pra agência, atendimento gritando, cliente ovulando, seu dupla espanando...
Eu olhava pro café, o café pra mim. Aquela coisa platônica. Enquanto meu eu interior pensa: o que custa dar aquela escapadinha? Meu super ego respondia: uma fortuna colega, uma fortuna que seu orto insiste em achar que você pode pagar... E que, cá pra nós, você não pode!.
Diante dos fatos (e do holerite) me mantive impávido na privação. E decidi suplantar a vontade na água. Pois não li na revista que é saudável? Então comprei 3 garrafas e me joguei no mantra: água é vida, água é viva, água é vida. E posso falar? Superfuncionou.
O problema é que além de vida, água é xixi. E depois de parar tudo pra ir ao banheiro doze vezes numa tarde, desencanei dessa história de água. Que usei pra regar o bambu modernoso que tem do lado da minha mesa.
O resumo da ópera é que no fim do dia eu continuava estressado, com vontade de fazer xixi, vontade fumar, vontade dum cafezinho preto e, ainda por cima, morrendo inveja da amiga que chora no banheiro.
[Reflexões: A gente adora café, mas odeia ser café com leite]
Quinta-feira, Janeiro 19, 2006
Vencendo o medo do vestiário
Você entra no recinto. De um lado, um gordinho peludo desfila pelado. Do outro, um hedonista faz o lânguido. Ao fundo, um gay tenta olhar seu pinto. E você pensa: Catso, estarei eu num pesadelo ou numa peça do Zé Celso Martinez Corrêa?
Nenhum dos dois colega, provavelmente você estará adentrando em mais um estranho e complexo estabelecimento que faz parte da nossa vida adulta: o vestiário da academia. Sair correndo? Nem pensar, você venceu desafios maiores que esse (tipo exame médico do serviço militar), então chegou a hora de você vencer mais esse.
Pra começo de conversa, ignore os exibicionistas. Num lugar onde hedonismo é dogma é normal encontrar gente errada que se acha linda, mas parece uma obra do Francis Bacon. Evite olhar e fique na sua. Se for chorar de nervoso se tranque no banheiro.
Não estranhe se alguém pedir seu desodorante, hidratante e tals. Desde do advento do metrosexual, pedir emprestado pro colega pode. Já ficar em pleno vestiário discutindo qual a melhor marca, é demais. Controle-se.
Gays e academia é tipo all-star e roqueiro indie. Um não vive sem o outro. Se você desconfia que aquele cara de shortinho agarrado quer divir muito mais que o supino com você, use o espelho. Se você for bonitinho, capaz de você estar certo. Se você for feito, relaxa que ele está apenas sendo simpático.
Por fim, não tenha vergonha de tirar a roupa na frente daquele bando de fortões só porque você não tem um corpo de Adonis. Até porque, como disse o Simão, de que adianta uma barriga tanquinho se a torneira é pequena?
[Reflexões: Se cair o sabonete, deixa...]
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
Almoçando sozinho sem drama
Tem gente que tem horror a almoçar sozinho. Claro que almoçar uma salada sem graça conversando com alguém bom de papo é bem menos doloroso. Mas você há de concordar que existem dias onde o ditado 'antes só que mal acompanhado' faz todo o sentido. Esse dia, pra mim, converge nas quintas, quando acontece o fenômeno análise.
Sim, todos os meus amigos fazem análise nesse dia da semana, não me pergunte por que! E como eu não faço, além de ser menos resolvido ainda fico sem companhia para dividir uma boa macarronada. É aí que surgem os convites para os almoços de firma: aqueles com mesas de vinte pessoas onde o papo gira 100% em torno do trabalho. Juro que eu tento, tento, mas não consigo ir.
Já cheguei a combinar várias vezes. Mas no meio do caminho uma força maior guia meu carro pra outro lugar. Onde como solitariamente, porém feliz. O efeito colateral é você passar ser visto como um tipo de persona non grata do meio-dia. Mas você por acaso quer ser deputado? Pois nem eu!
Mas almoçar sozinho pede certos cuidados. Levar uma revista legal (importada, pra fazer um estilo) é básico. Se for no Sachinha da Vila Madalena então, leva duas, porque demora que é uma coisa. Levar uns óculos escuros pra dar o ar misterioso e fumar um cigarrinho, também dá um elãn. Mas como parei com a nicotina, pulo essa dica.
Por isso não tenha medo, se não tiver companhia, encha-se de confiança e vá almoçar sozinho sim senhor. Afinal, se você não tiver paciência de almoçar na companhia de você mesmo, quem terá?
[Reflexões: Na falta de alguém pra passar o sal a gente usa a pimenta mesmo]
Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
Bem da fita, bem na foto
Então você comprou uma digital? E tá tirando foto pra lá e pra cá? Finalmente, né colega? Mas agora take it easy pois ter uma digital, como tudo na vida, tem seu lado positivo e negativo.
De positivo: não precisar contar com a boa vontade dos amigos que tiram fotos incríveis, prometem te enviar e nunca cumprem a promessa. De negativo: Tirar fotos incríveis, prometer enviar e nunca cumprir a promessa.
De positivo: selecionar suas melhores fotos e nunca mais sair tipo espirrando numa foto, com cara de ogro, só porque o amigo que estava do seu lado saiu lindo. De negativo: nunca mais sorrir naturalmente na vida.
De positivo: poder escolher fotos mais bacanudas e imprimir em papel. De negativo: deixar pra depois e não imprimir nunca, até perder a história de uma vida por conta de Édna (que não é vírus, mas sua empregada demolidora) .
De positivo: cruzar uma celebrity glam numa trip internacional, fazer um clique e ter história pra contar pra vida. De negativo: pedir uma foto pra uma zé-buça tipo Débora Seco e ser obrigado a ouvir que ela não quer ser incomodada nas férias (que eu vi acontecer).
De negativo: tirar fotos pornográficas e ter sua intimidade descoberta por algum(a) desavisado(a) intrometido(a). De positivo: passar e ser olhado de uma forma diferente e ficar com a fama de que tem a mão grande.
[Reflexões: ... Não ficou boa, tira outra.]
Quarta-feira, Janeiro 11, 2006
Pastéis de verão
O pastel de verão nada tem a ver com o pastel de feira. Até porque a gente não malha pra caralho pra se estragar num pastel com caldo de cana. Tô me referindo aos tons pastéis, que teimam em invadir nosso guarda-roupa no verão.
Isso acontece porque no verão o povo se joga na praia. Logo, tosta pencas e acha que comprar tudo clarinho ajuda a ressaltar o bronze. O que é verdade. O foda é quando você sai de casa com o primeiro modelo que vê pela frente e se pega num tom sur tom bege bebê numa reunião importante.
Afinal, calça bege é tendência safári, camiseta bege é tendência básica, mas calça bege mais camiseta bege, aí colega, é tendência gari. Bronzeadíssimo e de Lacoste, mas ainda assim gari.
E outra, quem se veste sempre da mesma cor aparenta falta de criatividade. E num mundo onde existem coisas tipo glory hole (que me permito não entrar em detalhes aqui) isso pode soar sem graça na hora de impressionar alguém.
Que deus me perdoe pro que vou falar agora, mas se faltar referência abre a CARAS e vê como os globais se vestem no verão. Não me pergunte porque, mas eles costumam superacertar. Ou então pede ajuda prum amigo gay.
Afinal, pior do que fazer o gênero tom sur tom, é fazer o gênero Frida Karlo e misturar tudo que é cor só porque te dá na telha. A não ser, claro, que você tenha um pavão andando pela sua casa. E você num tem... Ou tem?
[Reflexões: pastel? Nem de queijo]
Segunda-feira, Janeiro 09, 2006
Um Olympo chamado Rio
Malho que nem um camelo. Por isso, fiquei passado quando percebi que quase não tinha lugar na tabela de beleza carioca, criada por uma roda de amigos numa tarde de fim de ano no Cafeína Ipanema, com base nos corpos passantes. Vamos a ela:
Corpo legal: é tipo assim, um corpo legal e só. Tudo em cima, sem nada sobrando. Noutro lugar do globo você seria sarado. Já no Rio é apenas comum. Básico.
Corpo magro: valorizado quando se tem abdômen com gomos enormes e visíveis. Ser só magro nem entra na tabela, pois (segundo meus amigos cariocas) filé de borboleta não conta.
Corpo Marombado: palavra que só existe no carioquês. Abdomens perfeitos, bíceps e trapézios enormes. Conhecedores dizem que todos, sem exceção, bombam.
Corpo escândalo: é o ideal, moldado a base de malhação e açaí. Forte, definido, sem ser obscenamente grande. Pede-se uma penugem na barriga e bronzeado incrível.
Barbie: grande, sarado, bronzeado, é quase bonito, se não fosse over. Geralmente tudo é depilado dando aquele ar plástico, que ninguém merece.
E como todo mortal sonha com o Olympo, peguei treino novo com minha eterna profs de gym e comprei um pote de Whey Protein no shopping. Afinal, se a gente pode ser inteligente, culto e também sarado... Tá, eu paro.
[Reflexões: A vida começa depois dos 40... 40 centímetros de bíceps]
Quarta-feira, Janeiro 04, 2006
Being Human
A primeira coisa mais legal que li no primeiro dia de 2006 foi a coluna da Danusa. Ela diz que todo começo de ano é aquilo: a gente se enche de boas intenções e quer perdoar tudo que nos entristeceu no ano anterior.
O seu melhor amigo que inventou uma desculpa esdrúxula pra não ir ao seu aniversário. Ou aquele que entrou na sua casa e roubou algo seu por achar que você merecia uma lição (?). Ou aquela pessoa que não te tratou legal quando você estava pra baixo...
Coisas bestas. Mas que calaram fundo e que dentro dos seus códigos morais não se faz. E que você devia perdoar. Mas não vai. Pois se esses que feriram você não são perfeitos, você também não o é. E ponto.
E dentro da nossa imperfeição humana, só de não dar o troco que essas pessoas merecem, já está de bom tamanho. Mas atenção, nada de levar seu ódio por aí feito mochila. Odiar envelhece. Deve-se apenas esquecer.
Até porque, se tem alguma coisa que eu acredito, é que as pessoas no momento em que decidem fazer algo pra chatear as outras, abrem mão de aprender alguma coisa sobre o que é ser humano... Coisa que a vida (e não nós) cedo ou tarde vai cobrar e ensinar.
Terça-feira, Janeiro 03, 2006
Quem quer: faz!
Tenho uma amiga que nunca passa o reveillon no mesmo lugar pra ter sempre uma virada diferente. Acho interessante pelo hype, mas na real acho que jamais uma passagem de ano será igual a outra.
Tudo bem que você novamente foi pro Rio. E jogou lírios no mar. E ficou bêbado de champanhe nacional e viu os fogos e abraçou estranhos enquanto caminhava na chuva até o Arpoador.
Mas cada ano que passa a gente fica diferente. Evolui um pouco. Engorda um pouco (toc, toc, toc). Fica mais sereno. Ou mais ansioso. E cada ano que passa é um outro da gente que faz pedidos de renovação.
Por isso, fecho a primeira coluna do ano com um trecho do Drummond, um cara que sabe como deixar a gente passado e que diz assim: 'para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.'
Né? E Feliz Ano Novo.